A Xícara

Eu costumava passar grande parte do meu dia imaginando inúmeras possibilidades do fim. A frieza de quem sabe exatamente o que está fazendo, um grito descontrolado de quem amou desesperadamente e já não aguenta mais, o choro daquela que foi pega em flagrante ou tomou a atitude errada...

Normalmente não é o que acontece e às vezes as lágrimas escorrem do par de olhos que não foram os do planejamento.

E dessa vez não foi diferente. As portas do armário abertas, algumas roupas que você não queria mais, jogadas pelo chão do quarto, a xícara de café suja (não que eu também não lavasse, mas era o seu café) e um táxi partindo enquanto eu tentava me levantar com a dor de cabeça de quem não tinha uma ressaca há séculos.

Seu plano realmente foi perfeito e inovador, nem nos meus delírios mais loucos pensaria em algo assim. Me embriagar para que eu tivesse um sono pesado e você ter tempo de arrumar suas coisas e brincar do que você chamou de "o que eu odeio em você" para desabafar suas insatisfações e não parecer uma louca que some do nada. Aliás, quase perfeito, podia ter lavado a porra da louça que você sujou.

Mas tudo bem, uma das coisas que a amnésia alcoólica não conseguiu apagar da noite passada foi a vontade que você reclamou do meu senso de organização. Agora eu estou aqui com roupas espalhadas pelo chão do quarto, armários e gavetas abertas por toda a parte e uma xícara suja de café na mesa de centro da sala. Se você soubesse a vontade que eu tenho de arrumar isso tudo, provavelmente ficaria orgulhosa de mim. Se bem que não me sobrou vontade de fazer muita coisa depois dessa rasteira.

Observando do sofá os últimos momentos dessa maldita xícara no que eu costumava chamar de nosso apartamento, consegui ver uma marca de batom na sua borda. Você devia estar realmente triste e desesperada para ter tempo de se maquiar enquanto acabava com a minha vida. Para onde teria ido? Imagino que a sua mãe não ligaria a mínima para esse tom chamativo de vermelho na sua boca. Quem sabe pra casa da pessoa que você terminava de falar ao telefone sempre que eu me aproximava?


São só nove horas da manhã de domingo e eu já quero que chegue a semana que vem. Tenho vontade de voltar pra cama mas não quero fechar os olhos. Tenho vontade de encontrar algum amigo mas não quero responder todas as perguntas que me serão feitas. Tenho vontade de arremessar essa xícara pela janela e faço isso.

Provavelmente as câmeras instaladas para evitar que alguns condôminos preguiçosos jogassem lixo pela janela, me trarão uma última recordação do seu descaso com o nosso relacionamento em forma de multa. Mas felizmente a definição delas é péssima e eu não vou conseguir ver que na xícara tinha uma marca de batom vermelho ferrari. Como se eu não fosse lembrar.

Bebo a solitária lata de cerveja que restou da noite anterior, um whisky velho que ganhamos na última visita do seu pai, volto pra a cama e deixo para decidir o que fazer com essa ressaca e esse aperto no peito mais tarde.

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