Diário de Pablo
Em 08/02/2011 eu iniciei o que chamei de "Querido diário de Pablo". Nunca foi um diário, visto que não escrevia diariamente, eram relatos de acontecimentos julgados por mim como memoráveis. Escrevi 9 capítulos fora de ordem cronológica e acabei apagando o 6º capítulo, mas compartilho abaixo o que sobrou dessa história reorganizado para fazer um pouco mais de sentido. Perdoem se alguma parte estiver bem mal escrita ou com péssimos erros gramaticais, ainda não revisei o texto. Deleitem-se:
1. A Grande Derrota
Aconteceu
numa sexta em setembro de 2010, Pablo não tinha pra onde ir aquele dia quando
Jorge o chamou para uma festa na sua escola, o renomado colégio Pedro II
unidade Tijuca. A proposta parecia boa, a escola era conhecida por ter garotas
realmente muito bonitas. Jorge fazia parte da equipe de organização da festa,
então já estava no local, para não ir sozinho, Pablo chamou Rafael que também
não é de ficar em casa numa sexta feira.
Foram de
moto e assim que chegaram não tinha muita gente, mas com o passar do tempo a
festa foi enchendo, de crianças! Era o que poderia se chamar de uma festa ruim,
sem bebida, sem mulheres, sem musica boa e com muita luz.
Pablo e
Rafael ficaram insistir para Jorge e seus amigos abandonarem a festa, e mesmo
tendo que tomar conta da pirralhada eles acabaram topando. Enquanto seus amigos
iam para o bar mais próximo, Buxixo, Pablo tinha que guardar a moto na casa de
um amigo que morava nas proximidades para poder beber com o bando. Então ligou
para Guilherme.
- Fala
seu arrombado.
- Que que
tu manda Pablão?!
- Po
cara, to precisando de um favorzão, posso guardar a moto na sua casa pra ir
beber com uns amigos no Buxixo?!
- CARALHO
VIADO! To aqui com a Pampam no Buxixo também, vou ligar pro meu pai e tu deixa
a moto lá!
E assim
foi feito, Pablo levou a moto para a casa do Guilherme e teve que andar o caminho
de volta para o bar, só não pensava que fosse tão longe. Demorou meia hora no
trajeto num rítmo quase de marcha atlética.
Quando
chegou ouviu muitas reclamações dos seus amigos, que esperaram cerca de meia
hora sem serem capazes de pegar uma mesa no bar, mas começaram a beber e tudo
se resolveu, Pablo ficava intermediando entre as mesas dos deus amigos e a de
Guilherme e a namorada.
- Ta
ligado que seus amigos são um bando de retardados neh?! - dizia Guilherme.
- Os
moleques são maneiros! - e caiam na gargalhada.
Guilherme foi seu melhor amigo do ensino
médio, até o segundo ano pelo menos que foi quando saiu da escola por ter
reprovado, era o tipo de pessoa que se não vai com a sua cara, é recomendável
que saia de perto.
Pablo e
Rafael beberam praticamente duas torres sozinhos, seus amigos não eram de beber
muito. Menos ainda de varar a noite na rua então antes das onze já estavam se
despedindo, mas Pablo e Rafael apenas tinham começado a beber e não pretendiam
voltar pra casa tão cedo. Foi então que Pablo começou a procurar na lista
telefônica alguém que pudesse salvar sua noite, foi olhando nome a nome até
chegar na letra T, Taís.
- Fala
Taís, tem alguma boa pra hoje?
- Po cara
que bom que você ligou, bora pra Hard Rock, to com duas cortesias sobrando, a
gente só tem que chegar lá antes de meia noite!
- Demorô!
Só tem um problema, to saindo da Tijuca agora, não sei se vai dar tempo.
- Vai
sim! a gente ta te esperando lá, Amanda e mais uma amiga que não conhece estão
indo comigo. Beijos, até daqui a pouco.
Parecia
que os deuses estavam conspirando a seu favor, ele nunca havia ligado para ela
antes na vida e quando resolve ligar tem duas cortesias para uma festa
esperando por ele e seu amigo.
Conseguiram
chegar a tempo, Taís estava extremamente linda como de costume e por sorte
Rafael se encantou pela tal outra amiga deixando as contas certas, Amanda já
tinha entrado na boate.
Assim que
chegaram descobriram que a cortesia era apenas um desconto, as entradas lhe
custaram 15 reais.
Pablo
conheceu Taís quatro anos antes, em uma escola que só ficou por um ano,
era do tipo de amiga super simpática, na época ele a dispensou por ser um pouco
a cima do peso.
Assim que
chegaram continuaram bebendo, nenhuma das garotas bebia, o que iria dificultar
bastante as coisas, e pior, detestavam pessoas bêbadas.
Pablo
ainda não estava bêbado, mas faltava pouco para que ficasse e parecia que Taís
já havia notado seu interesse por ela e talvez por isso estivesse mantendo
distância. Mas ele estava tão certo de que ficaria com ela naquela noite quanto
0,9999... é igual a 1.
- Só vai
saber se tentar. - Dizia Rafael que a certa altura também já não estava muito
lúcido.
E o pior
aconteceu, Pablo tentou:
- Você ta
maluco Pablo?! Nós somos amigos! - Não era o que ele esperava, mas foi o que
ouviu.
Aquilo
ecoou muito tempo na cabeça de Pablo, nunca antes havia sido rejeitado, ao
vivo, por uma amiga. Talvez tivesse sido pela bebida, talvez Pablo tivesse
tentado antecipar as coisas ou simplesmente ela não estivesse afim.
Na hora
não soube onde enfiar a cabeça e por sorte Amanda o abraçou e o tirou para
dançar. Pablo continuou bebendo até onde o dinheiro deu e voltou para casa com
Rafael que não havia chegado na tal amiga, ambos reclamando da vida.
Até hoje
Pablo duvida se 0,9999... é de fato 1.
2. Copacabana
Era o
último dia de aula de Pablo naquela escola, estava terminando o ensino médio e
ele fora lá para acertar alguns pequenos problemas com suas notas e como era de
costume beber com seus amigos, mas como também era de costume eles não
apareceram.
Pablo
então tentou se enturmar com a outra parte da turma, que ironia, teve três
longos anos para fazer isso e no último dia no último ano que ele tenta. No
começo não deu muito certo, assistiu a um amigo oculto do qual não fora
convidado a participar e roubou alguns bombons que Patrícia, a única
garota dali com quem conseguia manter um diálogo com mais de 4 frases, havia
ganhado na brincadeira.
Dali eles
foram para o "Foda-se", uma rua apelidada assim por acontecer de tudo
nela, e é claro, haviam muitos bares lá.
Ao fim da
primeira garrafa da vodka mais barata que conseguiram comprar Pablo já estava
enturmado, falava de sua vida como se estivesse conversando com amigos de
infância, de fato viraram grandes amigos, mas a noite só estava começando.
Tayana, com quem Pablo nunca falara
mais que um "oi" até aquele dia, recebeu um telefonema de sua mãe
avisando que ela passou em um concurso que queria muito, e é óbvio, ela queria
comemorar.
Pablo já
ficara quase sem dinheiro com a compra da vodka mas a felicidade de Tayana era
tanta que ela se propôs a bancar a companhia dos seus amigos.
Pegaram
então um ônibus para Copacabana. Ainda no ônibus entrou um rapaz pela porta de
trás com um violão e começou a tocar uma música que deixou Pablo tão
embasbacado que ele deu todo o resto do dinheiro para o sujeito. Depois
descobriu que era uma musica do Raul Seixas -claro, ninguém que compusesse uma
música daquelas tocaria em um ônibus.
Chegaram
em Copa e foram para um quiosque de praia, beberam algumas caipirinhas, falaram
coisas das quais se arrependeriam depois e foi então que chegou um Playboy,
amigo de Tayana, convidando todos para uma social em sua casa, seus pais haviam
viajado.
É claro
que nenhum bêbado seria louco de negar uma dessas. E foram todos para a tal
social.
No
caminho Pablo viu que o novo integrante do grupo estava conversando muito com
Patrícia, e pior percebeu que ele mesmo estava se sentindo atraido por ela.
Chegaram
lá e perceberam que a social era composta apenas pelos filhos dos donos da casa
e por eles mesmos. Patrícia e o tal Playboy foram conversar um pouco
destacados, mas Pablo não era bobo, se não fizesse nada perderia a garota e se
fizesse alguma coisa, bem, o máximo que poderia acontecer era perder a garota
mesmo.
Com o
maior espírito de "empata foda" se juntou ao casal para conversar, a
princípio foi um pouco evitado, mas com o tempo viram que o inconveniente não
iria se mancar então ficaram conversando os três.
Já
passavam das duas horas e Pablo dissera para sua mãe que ia "sair com os
amigos" sem grandes explicações, foi então que sua mãe ligou exigindo que
ele fosse para casa naquele instante, ele disse que obedeceria, mas assim que
desligou o telefone pensou "puta que pariu, não tenho dinheiro para ir pra
casa!" sua sorte foi que ele pensou tão alto que seu concorrente ouviu e
certamente teve a brilhante idéia "vou dar dinheiro para ele voltar para
casa e enfim fico com ela".
-Esquenta
com isso não, toma aqui velho.- ofereceu cinco reais a Pablo.
-Caralho,
quebrou um galhão agora.- e pegou o dinheiro sem pensar - Vamos Patrícia?!
Por essa
o Playboy não esperava, ela aceitou ir embora com ele.
Pablo
ficou com a Patrícia dentro de um ônibus, só lembra que era amarelo, nem sabia
ao certo pra onde estava indo mas conseguiu chegar em casa.
Foi a
primeira vez que ele ganhou dinheiro para beber e ficar com alguém.
Noite
memorável.
3. "Reveillon"
O ano
começou um pouco antes para Pablo por falta de dinheiro, não poderia
sair com seus amigos na virada, então pediu dez reais aos seus pais para ir em
um bar com os amigos no dia trinta, chamou assim de reveillon antecipado.
Convidou muitos amigos mas só Jorge, um grande amigo de infância, e Rafael,
seu melhor amigo da atualidade, iriam a princípio. Chamou também Jéssica,
uma linda garota ex namorada de um velho amigo seu, mas ela disse que não
poderia ir.
Jogaram
sinuca e beberam um pouco, menos Jorge que não bebe, até que Heitor, um
amigo que não via desde o ensino fundamental (Pablo agora estava na
universidade), chegou e ficaram conversando sobre os velhos tempos, sobre como
era bom quando infligir as regras ainda lhes dava alguma felicidade.
Uma hora
da manhã, quando Jorge se preparava para ir embora o inesperado aconteceu,
Jéssica apareceu, linda como de costume -e bem vestida o que não era muito
comum. Para Jorge isso não mudava muito as coisas já que namorava e era muito
fiel a Talita, namorada que conseguiu conquistar com muito esforço e
empurrõezinhos de Pablo - ajuda essa que até hoje não fora retribuída. Então
Jorge deixou o bar e foi para casa.
Dali em
diante a sinuca parou, o jogo agora era disputar a atenção de Jéssica, mas a
bebedeira continuou, o que facilitava as coisas para um possível vencedor.
Depois de
pouco tempo um dos garçons pediu para que saíssem da área reservada para jogos
já que não estavam jogando e teriam que pagar se continuassem ali, então eles
desceram para as mesas de bar, o que tornou a disputa mais geometricamente
justa.
Foi então
que as coisas se desequilibraram um pouco, Heitor resolveu sair para fumar um
cigarro e o que parecia bom ficou terrível: Jéssica também fumava. Ambos saíram
para fumar e então Pablo disse:
- Isso é
injusto, eles se conheceram hoje!
- Ele não
deve saber a quanto tempo estamos batalhando por isso.- Acrescentou Rafael.
Depois de
alguns longos minutos Pablo achou melhor ver o que estava acontecendo.
- E
então?- Perguntou Rafael quando ele voltou.
- Não vi
nada, tem muita gente lá fora- fez uma pausa - Isso não é bom, devem estar em
algum canto acabando com a nossa noite.
- Se
fosse você lá fora eu não ficaria tão puto, aquele viado não merece. Vou lá dar
uma olhada- E Rafael saiu.
- E
então?
- E então
o que?
- O que
foi que você viu porra?!
- Ah,
eles só estavam conversando, acho que me viram, me senti meio idiota.
- Relaxa,
qualquer coisa fala que foi pegar um ar.
Então
eles voltaram, mas com um novo amigo. Hélio não só não conseguiu o que queria
quando saiu como cometeu o erro de apresentá-la a um paulista que acabara de
conhecer.
Jessica,
Bêbada, fácil, e morrendo de vontade de jogar sinuca acabou aceitando o convite
do paulista, mas Pablo e Rafael foram atrás assegurar que nada iria acontecer.
Nada
aconteceu na mesa de fato, até que ele a chamou para pegar uma cerveja, e então
eles se beijaram.
Pablo e
Rafael se sentaram novamente, Heitor só voltou para pegar sua mochila e foi
para casa, então decidiram fazer o mesmo.
-
Jéssica, estamos indo.- Disse Pablo, seco.
- Mas
já?! Então eu também vou.
- Pode
ficar ai com o paulista, a gente não esquenta.
- Não,
quero ir embora com vocês... e ele beija muito mal.- e Jéssica deu uma risada.
Então ela
se despediu do paulista e eles foram para casa, pelo menos essa era a idéia.
Quando passaram em frente a um parque abandonado Jéssica sugeriu que entrassem.
Nenhum
deles estava pensando muito bem em decorrência da cerveja, entraram sem
argumentar.
Deveriam
ser umas três horas da manhã e eles ali deitados conversando sob a luz das
casas de quem não tem o costume de apagá-las. Conversaram sobre o paulista,
sobre a duvidosa opção sexual do paulista, sobre como Pablo e Rafael odiavam
ele e quando os assuntos se cessaram, Pablo a beijou, sem mais nem menos,
simplesmente a beijou. Não lembrava o quanto desgostava o gosto do cigarro, mas
mesmo assim gostou muito do que fizera e quando deram por si Rafael não estava
mais ali.
- Nós
somos loucos.- Pablo Sussurrou.
- Como é
bom ser louco.- Concordou.
Ficaram
lá por mais algum tempo e então foram embora trocando as pernas.
Foi uma
noite que Pablo nunca esqueceu.
4. Os outros
Os
primeiros dias do ano estavam prometendo um ano espetacular, estava vendo
Jéssica quase todos os dias e saindo muito com Rafael, Jorge e Sandro,
seu melhor amigo na infância que se mudara para o sul e estava passando as
férias no Rio.
Estava
tudo perfeito, perfeito de mais, e como diz o ditado "se melhorar
estraga": Melhorou e estragou.
Lá pro
décimo dia do ano Pablo já não estava muito feliz, sempre foi uma pessoa que
detesta rotina e controle e para uma pessoa que não gosta de ser controlado que
um relacionamento sério. Jéssica começou tocar no tema toda vez que se viam -e
ainda se viam todos os dias- e ele sempre tentava se esquivar com boas
desculpas ideológicas.
Até que
em uma madrugada seu telefone tocou com um número desconhecido, os três
primeiros dígitos eram familiares, mas fazia tanto tempo que não se viam que
ele achou improvável, quando atendeu viu que o improvável estava acontecendo.
- Alo?
- Alo,
Pablo?
- Vera?
- Te
acordei?
- Não, eu
não estava conseguindo dormir mesmo, tudo bom?
- Estou
com saudades!
- Pensei
que nunca mais te veria. - disse ele.
- Prometi
para mim nunca mais te ligar, mas fiquei com saudades.
- Que bom
que ligou!
- Preciso
te ver o mais rápido possível!
- Tenho
que te contar uma coisa... estou ficando com a Jéssica.
Ela ficou
em silêncio, eram grandes amigas.
- Mas
também quero muito te ver.- Concluiu pablo.
Continuaram
conversando até quase o sol nascer, não se viam a mais de seis meses. Vera era
uma jovem menina que ele conheceu em uma festa, ela tinha um namorado chamado Ian
, tiveram um curto caso enquanto ela namorava e desde então não se viam.
Marcaram
de se encontrar no dia seguinte, Pablo deu uma desculpa qualquer para Jéssica
para não vê-la aquele dia e foram para um lugar onde ninguém os conhecessem.
Ficaram a tarde inteira juntos, Pablo não sabia porque, mas gostava muito dela,
seu sorriso parecia muito sincero, e ela sabia exatamente o que dizer para
mexer com ele.
Não se
viram mais, ele fez o que pode para encontrá-la mais uma vez mas tudo que
conseguiu foi falar com Ian por alguns segundos no telefone:
- Alô,
Vera?
- Alô,
quem ta falando?!
- ...
Pablo
então achou melhor reformular sua vida, não gostava do que estava fazendo com
Jéssica e sabia que não teria futuro com Vera, então decidiu mudar. Parar o que
nem havia começado com Jéssica, esquecer Vera e tocar sua vida.
Pablo
nunca fora covarde, não tinha medo de ficar sozinho. A solidão lhe era a melhor
companheira nas horas de reflexão.
5. Carnaval
Era manhã
do primeiro dia de carnaval e Pablo não tinha grandes planos em mente, preferiu
não viajar com seu irmão e ir pro mesmo lugar que ia todo os carnavais e que
sempre prometia não voltar, não que ele não gostasse, mas depois de um certo
número de carnavais no mesmo lugar acabava ficando chato.
Ele
estava completamente sem dinheiro, só receberia uma semana depois do carnaval e
sua mãe detestava lhe emprestar dinheiro para bebida. Foi então que ela chegou
do mercado e comprou algo que comprava somente em ocasiões especiais, cerveja.
Não era muita, na verdade não dava nem pra fazer uma pessoa cambalear, eram
apenas duas latinhas de mousebier. Mas a quantidade não importava porque a
cerveja não era para ele, ela lhe deu a única idéia que poderia tornar seu
carnaval um pouco menos chato: comprar bebida e levar de casa! Como? Com o cartão
de crédito que ela mesma havia lhe dado.
É claro
que ele não levaria as cervejas na mão, então teve que comprar também uma bolsa
térmica, o que reduziu bastante o número de bebida que poderia comprar, gelo o
seu congelador faria. Ligou então para Rafael, Jorge e Douglas, um dos
seus maiores amigos, e contou sobre a sua brilhante idéia, todos aprovaram e
naquela mesma tarde foram às compras. Compraram o essencial, vodka e cerveja e
ainda ficaram se perguntando se não estariam comprando bebida demais.
- Se
sobrar a gente bebe depois,- Disse Pablo - o que não pode é faltar!
Estava
tudo pronto para o carnaval, só faltava mesmo anoitecer, e antes que isso
acontecesse seu telefone tocou.
-Koé
Pablão, meu carnaval melou e eu to no rio, qual a boa de hoje?- Perguntou Davi.
-Eu e
minha galera vamos aqui perto, não é como a zona sul mas já é alguma coisa.
-Então eu
e Sabiá estamos indo pra aí!
-Tudo
bem, mas tragam dois engradados porque estamos levando bebida de casa, se
quiserem podem dormir aqui em casa.
-Beleza,
até mais tarde.
Davi e Anderson, ou Russo e
Sabiá como todos os chamavam, eram dois amigos que estudaram com Pablo no
ensino médio, mas que ainda o acompanhavam em mesas de bares.
O grupo
estava fechado e o carnaval começou, decidiram levar metade da cerveja que era
para durar todo o carnaval apenas para garantir que não faltasse, o que deixou
a bolsa um pouco pesadíssima, mas para cada problema há uma solução e a desse
era não ficar com as mãos vazias.
A bolsa
foi esvaziando numa velocidade incrível, o que fez com que chegassem lá já um
tanto quanto animados.
Não
estava muito cheio, chovia aquela noite, mas ao que parecia não era problema
para nenhum dos seis. Se divertiam como nunca antes haviam feito, parecia que
só ali, já dando adeus a suas adolescências, no mesmo lugar de quase todos os
anos anteriores que perceberam o verdadeiro significado de carnaval.
Pablo
então conhecera a Carol, a primeira do carnaval e única daquele dia, seus
amigos disseram que era muito bonita, ele mesmo nem sabia, havia bebido além da
conta, estava de óculos escuros e encharcados ainda por cima, mas mesmo que
fosse feia, era carnaval!
Mesmo com
toda improbabilidade toda cerveja que levaram acabou, por sorte, já que ninguém
queria ter um coma alcoólico. E às duas horas da manhã a musica parou para a
infelicidade de todos, então foram forçados a vagar lentos e tortuosos para
suas casas.
Era
apenas o primeiro dia de carnaval, mas estavam certos de que seria o melhor de
suas vidas.
O segundo
dia começou como todo dia após uma noite de exageros, "nunca mais vou
beber" era o que todos diziam, mas ninguém é louco ou lúcido o suficiente
para cumprir tal promessa, então lá foram eles, dessa vez sem Russo e Sabiá que
haviam ido embora prometendo voltar no dia seguinte, mas com a mesma bolsa, a
mesma quantidade de bebida -a outra metade- e o mesmo plano: esvaziar o mais
rápido possível para deixar mais leve.
Como todo
bom plano, este estava funcionando bem e chegaram mais uma vez felizes e
contentes para mais uma noite de folia, dessa vez um pouco mais cheia já que
não estava chovendo.
Sem
dúvidas foi o dia mais marcante do carnaval, pelo menos para Pablo, além de ser
o dia que mais saiu com garotas, chegou ao "incrível" marco de
duas,Julia e Josy, antes que a música cessasse às duas da manhã, após as duas
encontrou a única pessoa que não gostaria encontrar, não enquanto estivesse
sóbrio, mas não estava, naquela noite além da cerveja beberam também a garrafa
de vodka e Pablo já não raciocinava direito. Antes que percebesse já estavam se
beijando, Pablo encontrara Jéssica.
Ela
estava em estado igual ao dele, senão pior. E já que encontrara ao final da
festa teve a única idéia que qualquer bêbado no seu lugar poderia ter:
"Vou levá-la para casa... a minha casa.".
Foi o que
fez, não com muita facilidade, já que os dois se arrastavam pelas ruas, levaram
quase duas horas em um caminho que facilmente é percorrido por uma idosa com
artrite em vinte minutos.
Enfim
chegaram, e Jéssica perguntou:
-Tem
camisinha?
Pablo
apenas fez que sim com um sorriso de quem esperava por aquela pergunta.
A mãe de
Pablo não tolerava a presença de "ficantes" em casa, então ele fez o
máximo possível para não acordá-la, o que não funcionou muito bem já que quando
ele subiu para pegar a camisinha ela perguntou:
-Quebrou
alguma coisa lá embaixo?
-Quase
isso.- Respondeu ele sem pensar bem nas conseqüências dela levantar para
averiguar, o que não aconteceu por uma sorte quase divina.
As coisas
correram quase como o planejado, Pablo conseguiu fazer com que Jéssica voltasse
para casa antes que sua mãe resolvesse descer e acabar com sua vida. Mas nem
tudo correuperfeitamente bem.
Um
cigarro pertencente à Jéssica caiu no chão da sala, o que já traria muitos
problemas, mas não era um cigarro comum, era provavelmente o maior baseado que
Pablo veria na vida. O problema é que ele não viu naquela noite e quando viu
ele já estava nas mãos da sua mãe que àquela altura já fazia as maiores juras
de desgosto de sua vida...
6. Ainda Carnaval
A mãe de
Pablo ficou irada com o que achou em sua sala assim que acordou. Não era para
menos, havia um longo cigarro de maconha com a ponta queimada.
- VOCÊ
PODE ME EXPLICAR ISSO?- Foram as primeiras palavras que Pablo ouviu no seu
terceiro dia de carnaval.
- ... -
Ele abriu os olhos e tentou entender o que estava acontecendo - O que é isso?
- VOCÊ
SABE MUITO BEM O QUE É ISSO, EU QUERO SABER COMO VEIO PARAR NO CHÃO DA NOSSA
SALA!
- Deve
ter caido da Jéssica.- Ele não conseguiu pensar em nenhuma outra pessoa, então
de fato entregou a dona do tal cigarro.
- E O QUE
A JÉSSICA ESTAVA FAZENDO AQUI EM CASA?! - A mãe de Pablo não tolerava que
levassem mulheres a sua casa para "tais atos", a casa para ela era um
templo sagrado que em hipótese alguma poderia ser "poluído".
-
Encontramos ela jogada na rua, completamente embriagada, trouxemos ela aqui,
ela tomou banho e foi pra casa.- Pablo falou sem respirar, sem gaguejar e com
uma tranquilidade que tranquilizaria um homem bomba a dois segundos de detonar.
Sua mãe
acabou acreditando no que de fato não era 100% mentira. Ter aumentado o número
de pessoas na história ajudou com que sua mãe acreditasse e um vômito mal limpo
em seu banheiro confirmou a história.
O que
parecia um fim antecipado do seu carnaval não passou de um impecilho que logo
seria esquecido. Russo e Sabiá estavam voltando para casa de Pablo para os
últimos dias de carnaval.
A bebida
comprada para os quatro dias havia acabado no segundo, então tiveram que ir as
compras mais uma vez.
A noite
começou um pouco mais 'parada' que as anteriores, Pablo ainda não acreditava no
que tinha acontecido e acreditava menos ainda que sua mãe não o tivesse matado.
Mas aos poucos eles iam se soltando, conforme a cerveja ia acabando.
Uma jovem
senhora de aproximadamente cinquenta anos veio dançando na direção de Pablo
toda "serelepe" quando de repente ele ouve:
-Paaaablo,
Quanto tempo!
Era uma
garota que ele só havia visto uma vez na vida e que nem o nome sabia, o que fez
ele ficar um pouco sem jeito e então ela complementou falando bem baixo:
-Eu só
falei com você porque você ia pegar a minha mãe.
-Tá
maluca? Eu só tava brincando, tu acha mesmo que eu ia pegar a sua mãe?!
Depois de
trocar um pouco de cerveja por um selinho, Pablo apresentou Adriana e suas duas
amigas ao resto do grupo.
Russo e
Sabiá investiram pesado nas amigas de Adriana, Pablo se afastou um pouco afim
de deixar com que eles se entendessem, o que por fim acabou acontecendo, mas
antes que acontecesse uma "policial" chamou sua atenção.
- Eu fui
um mal menino, me prende!- Experimentou ele.
- Se eu
te prender não vai ter como soltar.
- Qual é
seu nome?- Ele perguntou.
-
Patrícia.
- Então
só me da um beijo Patrícia!
- Porque
seus amigos estão nos olhando?!
- Não
faço a menor ideia.
- Eu te
dou um beijo, mas vamos sair daqui!
Patrícia
segurou a mão de Pablo e o levou consigo.
- Para
onde estamos indo? - disse Pablo.
- Não
sei, para onde quer ir?
- Eu
estava indo mijar quando te encontrei. - Sim, ele disse isso!
- Então
vamos!
- Não vai
me algemar?
- Perdi
as chaves, não vai ter como soltar, quer mesmo ser algemado?
- Quero
correr esse risco.
Ela o
algemou e foram para uma rua onde as pessoas de fato estavam mijando, mas não
era bem isso que ele queria, andaram mais um pouco até que não houvesse mais
ninguém e encontraram um beco mais aconchegante.
Pablo não
conseguiu grandes coisas, mas foi até muito se levar em consideração onde
estavam. O tal beco aconchegante não cheirava muito bem e algumas pessoas
passavam olhando. Mas a brincadeira acabou mesmo quando o dono do carro que
estavam sentados pediu que se retirassem para sair com o carro. Teve um pequeno
problema para se soltar das algemas, o que acabou resultando em um par de
algemas quebradas.
Sem
raciocinar direito, Pablo concordou em levá-la no ponto de ônibus, mas depois
de muito caminhar e raciocinar o quão longe era o ponto dela ele disse que só a
levaria em uma rua que era próxima a sua casa, e quando chegou nessa rua:
- Eu só
venho até aqui.
- Poxa,
vai me deixar andar sozinha até lá?
- Me
desculpa, mas eu não sou romântico e nem educado, já te trouxe até aqui e a rua
até que está bem cheia, não vai ter perigo nenhum.
E assim o
fez, se despediu e voltou literalmente correndo para o bloco. Não que estivesse
perdendo minutos valiosos do seu carnaval, mas tinha esquecido completamente
que Russo e Sabiá estavam bem longe de casa e iriam dormir em sua casa.
Depois de
muito correr encontrou seus amigos já quase chegando no bloco, o suor devido à
corrida fez com que seus amigos pensassem que a noite de Pablo tivesse sido
excepcional, o que causou uma certa euforia no reencontro, mas logo as dúvidas
foram sanadas e foram para casa dormir e esperar pelo derradeiro dia de
carnaval.
O último
dia de carnaval não teve nada de muito especial, Russo foi para outro bloco,
Jorge saiu com uma menina muito bonita, Rafael voltou cedo para casa, Pablo
conheceu Débora, a mais linda e última que ele ficou do carnaval e o resto tem
menos relevância ainda.
Mas ainda
havia todo o resto de uma semana sem aulas pela frente, nesses dias sim havia
algo de bem especial o aguardando.
7. A Primeira Namorada
Pablo
nunca foi um aluno muito estudioso, mas sempre se interessou muito pelas aulas
de matemática, o que fazia com que, sem muito esforço, ele se destacasse na
matéria. Costumava sempre ser o melhor com números da turma.
Um dia,
sem prévio aviso, Pablo chegou na sala e encontrou a turma fazendo uma prova, a
professora explicou que era uma olimpíada nacional de matemática, e mesmo que
não valesse ponto, era muito importante. Ele fez, e como era de se esperar, foi
o melhor de sua escola, passando assim para a segunda fase. Sua mãe ficou muito
orgulhosa e cobrava para que ele se preparasse para a tal.
- Pra
que?! Ganhar um aperto de mão de alguém importante e um bouquet de flores? isso
eu dispenso.- ele dizia.
Mas Pablo
fez a prova, não se preparou e ainda assim passou. Foi um dos cem primeiros
colocados do país, o que fez com que ganhasse uma medalha de "ouro" e
uma viagem para o tão distante Rio de Janeiro, que ironia.
Pra quem
achou que ganharia um bouquet e um aperto de mão, até que não era nada mal,
ainda que ele ficasse hospedado no hotel Novo Mundo, no bairro do Flamengo a
trinta minutos de casa.
Os
premiados ficariam cinco dias no hotel com tudo pago, exceto os próprios
moradores do Rio que poderiam ficar apenas três, Pablo estava nesse grupo.
O
primeiro dia foi bem estranho, dormir em um quarto pequeno com dois outros
marmanjos que nunca vira na vida não era uma ideia tão agradável, mas logo se
enturmou. Não sairam do hotel aquele dia.
No
segundo dia foram todos convidados a "conhecer" o corcovado e a orla.
Não teve nada de suma importância, sempre fora um frequentador assíduo de
praias e além de já conhecer o cristo, não via nada de mais nele.
Voltaram
para o hotel antes do anoitecer e assim que caiu a noite fora anunciada uma
visita repentina a um museu que ficava ao lado do hotel, ele nem queria ir, até
saber que depois aconteceria uma festa, ainda que fosse uma festa de nerds, era
uma festa!
A visita
ao museu foi terrivelmente chata, como já era de se esperar, mas na festa ele
viu uma garota que ainda não tinha notado, o que era muito estranho, porque ela
era linda.
Seu nome
era Noele, ele ouviu enquanto ela conversava com um de seus amigos, não perdeu
tempo para entrar na conversa e logo ficou encantado. Descobriu que não a havia
notado por ela ter acabado de chegar, morava no rio e estava ali por ter feito
a mesma prova que ele.
Pablo não
estava com a auto estima muito alta, tinha a cabeça raspada e muitas espinhas
na época, mas mesmo assim conseguiu cativar Noele.
A festa
acabou cedo, a maior parte dos convidados, inclusive Pablo e Noele, era menor
de idade. Quando subiam para seus quartos trocaram telefones e o próprio número
do quarto, "1012" ele levou tempo para esquecer esse número.
No meio
da noite o telefone do quarto de Pablo tocou, não foi ele quem atendeu, mas
desligaram sem dizer nada, meses depois descobriria que era Noele querendo
convidá-lo para uma social em um dos quartos, mas por não ter sido ele quem
atendeu, ela desistiu.
No
terceiro e último dia não se falaram muito, o dia foi corrido, pela manhã
visitaram o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), almoçaram em um
clube próximo, o que lhes deu um pouco de tempo para conversar e foram para a
premiação no teatro municipal com a ilustre presença do então presidente da república
Luiz Inácio Lula da Silva. Lula entregou a medalha para os premiados de Minas
Gerais e Pablo teve que se contentar em apertar a mão do então governador do
estado Sergio Cabral.
A
premiação acabou e Pablo não conseguiu se despedir como gostaria de Noele, mas
semanas depois ela o telefonou e marcaram de sair.
Essa foi
a história de como Pablo conheceu sua primeira namorada, espero que tenham
gostado.
8. Addendum
Toda a
dinâmica que o carnaval deu à vida de Pablo ia voltando ao normal com o passar
do tempo. O sexo sem camisinha com Jéssica não lhe trouxe nenhum problema, o
término do namoro de Vera não passava de mais uma rotineira briga e aos poucos
foram parando de se encontrar.
Cada um
tem um sentimento de gosto duvidoso, que mesmo que machuque, agrada de alguma
forma, o de Pablo era solidão. Não estava de fato sozinho, sua lista telefônica
nunca o deixou na mão, mas as garotas das quais atendiam seus chamados se
importavam tanto quanto ele se o próximo encontro seria em uma semana ou um
ano, pelo menos era como preferia pensar.
Talvez
estivesse amadurecendo, talvez estivesse se fechando, mas com certeza estava se
acostumando, dormir já não estava sendo um problema tão grande, os pensamentos
em Vera ainda o assombravam, mas em proporções semelhantes aos de algumas
outras das quais a ausência ainda lhe traziam algum mal estar.
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