O Plano Perfeito

Eu liguei, meio do nada, bêbado e com o som ambiente de trânsito e motor de ônibus, estranhamente fui atendido. Ela estava receptiva, acho que não notou que eu enrolava um pouco a língua, ou não se importou, conversamos por alguns bons minutos e ia tudo muito bem, até ela falar que perdeu uns números e não sabia quem estava falando. Desliguei.

Não foi do nada nem fui mal criado, mas achei melhor não continuar aquela, estranhamente, agradável conversa sem ao menos ter uma identidade. Me despedi com certo orgulho ferido.

Me surpreendi quando recebi uma mensagem se desculpando, e a conversa seguiu por aí. Não lembro se fui "lembrado" ou acabei me identificando, mas ela seguiu mostrando o mesmo interesse que apresentou pelo desconhecido.

Até então não nos conhecíamos, não pessoalmente, eramos um típico casal de amigos de internet, "amigos" que sabem exatamente onde querem chegar. E foi assim que marcamos a hora e o lugar.

Eu sugeri um almoço num restaurante que eu adoro, confesso que queria impressionar, mas ela "não tinha tempo" estava sempre atrasada e preferiu sorvete a uma suculenta picanha na brasa.

Foi muito divertido, rimos bastante, mas dias depois ela disse com seriedade que não gostou que eu tivesse confundido o sabor do seu sorvete, não consegui pensar em nada diferente de "sério isso?".

Marcamos mais uns encontros, foram igualmente agradáveis, ela tinha um ar de mistério que me causava muito interesse... Interesse demais, eu diria. Não era difícil encontrar seu celular desligado e por alguma razão que ela nunca soube me explicar exatamente eu não podia ligar para sua casa.

Com os dias fui criando teorias, mas ela tinha o poder de acabar com todas simplesmente retornando minhas chamadas perdidas e me convidando para deliciar seus três piercings na boca. E eu nem sabia que cabiam tantos piercings em uma boca.

Nunca fui de gostar de tatuagens e piercings, normalmente são ítens de pessoas inseguras e prepotentes, mas nela caiam bem, combinavam com sua espontaneidade.

O problema é que estava tudo muito bem para estar bem de verdade. O santo pode até ter desconfiado, mas eu deixei de notar que tinha algo bem errado. Foi em um sábado, depois de um dia normal de sumiço total que eu resolvi ligar para bater um papo.

Provavelmente nesse dia ela esqueceu de desligar o celular, provavelmente ela não conseguiu disfarçar uma ligação indesejada e teve que atender:

-Alô?

-E aí, você está por onde?

-Vim na batata de Marechal comer com meu irmão e minha cunhada. Olha, eu to comendo e vou ter que deligar, mais tarde a gente se fala... - desligou.

Minutos depois recebo a mensagem "desculpa por não ter te falado, mas estou namorando e meu namorado não gostou nada de eu não ter falado que ele estava comigo, eu ia te contar..."

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